quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Francisco e o Irmão Lobo de Gúbio


Gúbio, uma cidade na Úmbria, estava tomada de grande medo. Na floresta da região vivia um grande lobo, terrível e feroz, o qual não somente devorava os animais como as pessoas, de modo que todos do povoado estavam apavorados!
Por isso, cercaram a cidade com altas muralhas e reforçaram as portas. E todos andavam armados quando saíam da cidade, como se fossem para um combate.
Certa vez, quando Francisco chegou àquela cidade, estranhou muito o medo do povo. Percebeu que a culpa não podia ser unicamente do lobo. Havia no fundo dos corações uma outra causa que era tão destrutiva como parecia ser a causa do lobo.
Logo, Francisco ofereceu-se para ajudar. Resolveu sair ao encontro do lobo, sozinho e desarmado, mas cheio de simpatia e benevolência pelo animal, e, como dizia às pessoas, na força da Cruz.
O perigoso lobo, de fato, foi ao encontro de Francisco, raivoso e de boca aberta pronto para devorá-lo, mas quando o lobo percebeu as boas intenções de Francisco e ouviu como este se dirigia a ele como a um irmão, cessou de correr e ficou muito surpreendido.
Francisco de Assis anulou a violência que havia no irmãozinho lobo. De olhos arregalados, viu que esse homem o olhava com bondade. Francisco então falou para o lobo:
-Irmãozinho lobo, quero somente conversar com você, meu irmão ... E caso você esteja me entendendo, levante, por favor, a sua patinha para mim!
O irmãozinho lobo, então, perante tão forte vibração de amor e carinho, perdeu toda a sua maldade. Levantou, confiante, a pata da frente,e calmamente a pôs na mão aberta de Francisco.
Então, Francisco disse-lhe amorosamente:
-Querido irmãozinho lobo, vou fazer um trato com você! De hoje em diante, vou cuidar de você meu irmão! A cidade vai lhe dar comida, já que, por culpa das pessoas, a floresta não lhe oferece mais o alimento necessário. Você vai pode entrar em minha casa e vou lhe dar comida e seremos sempre amigos! Você por sua vez, também será amigo de todas as pessoas desta cidade, pois de agora em diante você terá acolhimento, comida e carinho, sendo assim, não precisará mais matar nem agredir ninguém, para sobreviver... Com a promessa de nunca mais lesar nem homem nem animal, foi o lobo com Francisco até a cidade.
Também o povo da cidade abandonou sua raiva e começou a chamar o lobo de irmão. Prometeu dar-lhe cada dia o alimento necessário. Finalmente, o irmão lobo morreu de velhice, pelo que, todos da cidade tiveram grande pesar.
Ainda hoje se mostra, em Gúbio, um sarcófago feito de pedra, no qual os ossos do lobo estão depositados e guardados com grande carinho e respeito durante séculos.
Este é um texto clássico das Fontes Franciscanas, que revela a pedagogia da paz de Francisco, é a parábola ou alegoria do “Lobo de Gubbio”, contada em Fioretti 21.
O lobo era demonizado pelos cidadãos que andavam armados quando saíam da cidade, como se fossem para o combate. O medo chegou a tal ponto que ninguém mais ousava sair da cidade. Entre a cidade e o lobo não havia diálogo, apenas enfrentamento, medo, defesa, ataque, combate. Francisco sai da cidade e vai ao encontro do lobo e vai vai sem armas, sem preconceitos, sem agressividade, inspirado em Jesus: com amor, perdão, não-violência.
Francisco não acoberta as maldades e violências do lobo, mas mostra que tal forma de agir tem a ver com a violenta fome que o animal sofria. E vê nele também um irmão e a possibilidade de construir novas relações entre ele e a cidade. Consegue pacificá-lo e alcança dele a possibilidade de um pacto de paz. Da mesma forma, Francisco vai ao encontro do povo da aldeia, denunciando-lhe seus pecados e convocando-o à mudança de vida, à penitência. Realiza-se um encontro entre ambas as partes e conclui um pacto de paz, que inclui o compromisso da aldeia em garantir comida para o lobo e o lobo passaria a agir sem maldade e agressividade. Trata-se de um pacto de paz diferente daqueles de Assis ou da “pax romana”, por exemplo, ou outros realizados na história em que predomina a vontade do mais forte sobre o mais fraco ou se estabelece apenas um equilíbrio de forças e interesses. Francisco torna-se um intermediário que ajuda a desarmar espíritos, superar preconceitos, construir novas relações, com um senso de realismo e com mística, com novos compromissos de ambas as partes, superando a causa do conflito. Entre o lobo e a cidade de Gubbio se dá um processo de conversão, de mudança, de mentalidade, de atitudes, de visão, de coração. Francisco desdemonizou o lobo e a cidade, pois ambos tinham suas razões e seus pecados, e investiu na possibilidade de um verdadeiro encontro entre as partes, de relações fraternas, de diálogo e de paz.

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